08/02/2014

Grupo de Funk feminista faz apologia a violência sexual com letra de musica que diz: "Vou cortar sua pica"

Devido o horário, vou comentar amanhã sobre o  Coletivo Pagu Funk, que canta:"Vou cortar sua pica", vem causando polêmica ao ponto dos seus vídeos serem excluidos


Se desejar ver o vídeo vá para baixo no fim da postagem


Esta semana que passou, algumas pessoas vieram me perguntar o que achei deste vídeo chamado "Pagu Funk", em que mulheres cantam juntas o que farão "se chegar lá na favela com esse papo de machista/ se ficar se aproveitando da b*ceta de novinha/ é militante de esquerda mas bate na companheira?/ é reacionário e fecha com Bolsonaro?", com o refrão "Vou cortar sua pica".

O refrão é intercalado com imagens de outras mulheres, de rosto coberto e corpo nu, cantando o mesmo refrão. A música também fala que "a missão vai ser cumprida", e "vem mulher com a mão pro alto pra fazer revolução", "a mina que é chapa quente não aceita submissão", "os homens vão pra cozinha rebolando até o chão", "criancinha libertária quer viver sem opressão".

Ironicamente, eu não vi o vídeo em nenhuma página feminista. Eu vi foi numfórum mascu, e imediatamente reconheci a linda menina que canta a música.

É a Lidiane, que esteve na palestra (sobre estereótipos de gênero na mídia) e na aula inaugural (sobre gênero e educação) que dei na UFRJ, em 2012, assim como no debate (sobre estado laico) no ano passado. Em 2012, Lidi e outra querida, Ima, tiraram foto comigo e me deram estes desenhos, altamente subversivos (cuidado: um deles contém desenho de gatinho; clique para ampliar).


Antes ou depois do debate em abril, Lidi veio falar comigo, e o que ela me contou me encheu de admiração e orgulho: que ela estava trabalhando com mulheres pobres em situação de risco na Baixada Fluminense. 


Sabe aquilo pelo qual o feminismo sempre é criticado, de ser um movimento branco e de classe média que tem dificuldade em se aproximar das mulheres na periferia? Pois é, era justamente isso que Lidi estava fazendo. Está ainda, tenho certeza. 


Quando me perguntaram do vídeo, respondi brevemente que me falta contextualização. Que tudo que sei sobre ele é o que vejo, sem saber quando, onde ou pra quê foi feito. Já recebi respostas atravessadas do tipo "Se fosse vídeo do Woody Allen você também iria defender" (aham, tenho certeza que ao ver um vídeo de funk só com mulheres, a primeira coisa que vem à mente é "Woody, cadê você?"). 

Um blog mascu disse que euzinha aqui estou por trás do vídeo, que ele faz parte "dos frutos que a Feminista Lola está colhendo com os anos de ódio misândrico que ela prega no blogue dela" (ha ha, de fato, o que mais tem aqui é ódio misândrico!). O mascu também diz que Lidi é "uma fanática seguidora" minha, e ele prova -- Lidi deixou um comentário no meu blog, dois anos atrás, e, pasmem, foi a minha palestra! Quando os mascus virem o desenho de gatinho que Lidi me deu, eles vão pirar!

Não sei quanto a você, mas quando eu ouço uma palavra como "misandria", eu rio. Porque obviamente vem de mascus, que não creem em misoginia, mas têm certeza absoluta que o ódio contra homens existe (assim como eles dizem que vivemos num matriarcado, ou numa "sociedade b*cetista"). E a prova incontestável disso é um vídeo feminista! 

Toda minha solidariedade a Lidi e às outras moças do vídeo, que certamente foram investigadas por "justiceiros mascus", e, claro, xingadas e ameaçadas, como é de praxe. Vale lembrar que o vídeo não foi postado apenas em veículos mascus, mas também em sites reaças e machistas "garden-type variety", com alcance infinitamente maior, como Kibe Loco, Não Salvo e Testosterona. Neles o vídeo foi postado como, sei lá, exemplo de que feministas são doidas, odeiam homens e não se depilam, logo, são horrendas (eu fico imaginando se eles já viram alguma mulher nua que não fosse photoshopada em revistas e filmes).

A maior parte dos comentários nesses sites é idêntica -- usando o grande poder argumentativo que aprenderam na quarta série, os rapazes (e algumas moças também) criticam os "peitos caídos" e as "pepecas peludas" das participantes do vídeo. Machistas não acreditam que feministas estão se lixando pro padrão de beleza ou pra aprovação dos homens, principalmente de homens machistas (que, nas raríssimas vezes que são fotografados, são tão bonitões quanto o Edu Testosterona). 

Bom, ontem a Alexandra, de Brasília, me mandou um email. Ela, com suas amigas, já havia escrito um guest post antes aqui pro blog.

Ela conta o seguinte:

"Ano passado o CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) organizou uma Residência Artística Feminista em Brasília que reuniu 30 artistas, de 8 regiões do Brasil, para pensar e experimentar pontos de contato entre arte e feminismo. Esse encontro gerou uma série de reflexões e criações artísticas, de várias linguagens, música, dança, fotografia, performance, vídeo, pintura, cultura popular, teatro e dança (a próxima residência artística feminista acontecerá semana que vem, em fortaleza).
Naquele momento, em nossos espaços de intimidades e empoderamento, gravamos um trecho de uma música do Pagu Funk que se chama “Vou Cortar sua Pica”. A música não é nova, é uma música que já roda em espaços feministas – em especial do Rio de Janeiro – há algum tempo. No entanto, está tendo uma repercussão fora do nosso esperado e é uma divulgação que está sendo feita, em grande parte, por blogs e perfis de redes sociais de extrema direita, de vários mascus que estão se sentindo agredidos pela música e distorcendo todo o nosso discurso.

O vídeo, que foi postado há uma semana, tem mais de 200 mil visualizações, e essa polêmica toda que ele tem gerado me mostra o quanto que a ideia simbólica de cortar a pica é cara pra muitos caras, mesmo que seja a pica em situações de violência como a que a gente explicita bem na música.

Particularmente, não queremos a castração de homens e não acreditamos que essa seja a solução. Há espaços e debates onde a doçura é insuficiente porque o coração é de pedra. A gente se utiliza da metáfora da violência pra ter voz, porque em certos casos só assim há interlocução, infelizmente. As pessoas tendem a ver as mulheres como sendo doces e frágeis, e é preciso romper, desafiar e afrontar no mesmo nível que somos afrontadas.

Essa polêmica tem nos causado consequências pessoais. Na segunda-feira, quando o vídeo começou ser mais visto, eu e a Lidiane tivemos nossas contas de emails atacadas mas, felizmente, não conseguiram entrar. Lidiane mesmo saiu do Facebook porque começaram a criar um meme com o rosto dela, e ela teme o que pode ser feito a partir dessa percepção de ódio em cima da canção."

Eu fiz algumas perguntas, e Alexandra respondeu:

"Todo o vídeo foi feito durante uma Residência Artística Feminista (REAL) que aconteceu em Brasília, no final do ano passado. A realização da REAL Feminista no DF foi viabilizada pela reunião de esforços do Grupo Impulsor, formado por artivistasfeministas do DF, pelo apoio e engajamento do CFEMEA e da Universidade Livre Feminista.


A parte em que a Lidiane está em nossa volta foi a primeira noite da residência onde ela começou a cantar e comecei a gravar. A parte em que as meninas estão nuas e cantando o refrão foi feito no último dia da residência. Ao término da residência artística, quando voltei para casa, vi que tinha um material bacana em mãos. Montei a versão do vídeo, mostrei para as meninas (através de um grupo fechado do Facebook que fazemos parte), elas aprovaram e lançamos muito sem expectativa.

Mais importante do que questionar a necessidade de estarmos nuas no vídeo, é questionar as reações que os machistas de plantão têm dessa imagem e o quanto que isso os afeta ao ponto de nos deslegitimar. Vejo a nossa nudez como uma apropriação do próprio corpo, sem qualquer traje que esconda nossas partes, como um campo de batalha que permite nos sentirmos à vontade daquele jeito.

Como não tínhamos grandes expectativas com o vídeo, coloquei no meu canal pessoal do vimeo mais para compartilhar a música entre nossas colegas, colocar a discussão e causar um empoderamento entre a gente. Faço parte de uma coletiva que se chama Tete a Teta, onde faço performance e intervenções urbanas com minha companheira. Temos um canal de vídeo e postei o vídeo por lá.

Acho que ninguém imaginava a grande repercussão tão negativa que isso ia causar. Na REAL, chegamos a conversar sobre algumas produções que fizemos por lá, que isso poderia ser mal visto. Mas na mesma hora fechamos que mesmo que isso acontecesse, estaríamos juntas, e fechamos de enfrentar o monstro. Tanto é que mesmo com tudo isso acontecendo, vai acontecer a segunda edição da REAL, próxima semana, do dia 14 ao dia 16, em Fortaleza.

Além do vídeo do Pagu Funk, na REAL do DF fizemos fotos, vídeos, poemas, e as meninas do Tambores de Safo fizeram novas músicas falando de feminismo, de liberdade, de empoderamento etc. Enfim, foi uma experiência de muita criação e fortalecimento para cada uma, no seu processo de criação e identidade ARTivista.

Imagino o que se passa na mente de um mascu ao ver mulheres fora do padrão de beleza, à vontade com sua nudez, cantando em grupo que vão cortar a pica de quem mexer com elas. O quanto que essa subversão da norma destrói seu imaginário heteronormativo, tão caro como suas picas.

Nessas horas fico pensando no poder do uso da metáfora para extinção do machismo. Como se houvesse um poder da fala contra o falo quando se repete: vou cortar sua pica. Tanto que sabemos muito bem qual pica não é bem vinda. E sabemos isso no dia a dia, das ruas sem iluminação até a convivência com pais, tios e irmãos violentos em casa."

Publico aqui a carta aberta do Coletivo Pagu Funk:

Carta Aberta do Coletivo Pagu Funk:

Pagu Funk é um coletivo autônomo e apartidário de mulheres funkeiras que transmite através da cultura funk uma mensagem feminista, sobre nosso cotidiano e das nossas irmãs das/nas favelas e periferias. O nome é uma referência à militante política de esquerda e artista da década de 20, Patrícia Galvão, conhecida como Pagu. A opção pelo funk vem como afirmação de uma cultura popular , que historicamente é marginalizada e deturpada pelas classes dominantes em sua ânsia capitalista de se apropriar e/ou diminuir tudo o que vem da favela. 

As rimas da PaguFunk nasce em um território onde a cada 5 horas é registrado um caso de estupro. Na região onde apresenta os maiores índicesde homicídios contra jovens do estado do RJ. Onde matam uma trans* por dia. 

É nesta conjuntura que mulheres optaram fazer versos e compartilhar suas vivências, como forma de transformar o cotidiano, onde é nulo o incentivo a produção e até mesmo do consumo não comercial dos aparelhos culturais e de entretenimento.

Buscamos incentivar o empoderamento e autonomia através de uma postura do "Faça Você Mesma", através de saraus, cantando nas praças e organizando oficinas musicais e de gravação, em bibliotecas comunitárias feministas e populares. Repudiamos o viés colonizador, com o qual muitos grupos de fora agem nestes locais, só os usando como objetos de pesquisa ou "circo exótico". 

Temos profundo respeito pela cultura local e pelos saberes individuais e são essas pessoas que influenciam diretamente nosso modo de ação. Ação esta que tem como sonho e meta transformar a realidade local desesperadora que vivenciamos diretamente nas ruas, becos, nos dias de alagamento, nas filas dos hospitais, na violência policial, nos ônibus lotados que somos obrigadas a pegar quando vamos trabalhar, principalmente, no que tange a classe proletária, negrxs, mulheres e trans.


Nesta caminhada pela militância política já cantamos desde encontros estaduais de mulheres até em calçadão de bairro. E entre esses convites surgiu a oportunidade de participarmos da Residência Artística Libertária Feminista (REAL), onde foi gravado um vídeo que vem sofrendo vários ataques machistas e misóginos por parte de reacionários na internet. 

Este texto surge como meio de reflexão sobre algumas respostas negativas que este vídeo teve. Agradecemos também todas as companheiras, amigas, ativistas e militantes, pelas palavras de apoio, carinho, identificação e afinidade. O texto está cheio de chavões, frases já debatidas quase a exaustão dentro dos movimentos feministas e de mulheres, mas não conseguimos escapar disto, pois aparentemente ainda há pessoas que não entenderam, uma vez que a maioria das respostas negativas que tivemos, é baseada dentro do senso comum machista e a gama de misoginia e ódio que ele desperta. Não nos interessa, entretanto, debater ou conversar com estas pessoas, eles já escolheram um lado, já tem uma posição, um modo de atuação que é totalmente antagônico ao nosso, somos inimigas destes homens machistas e misóginos.

Então, mais uma vez, machismo e feminismo não são as mesmas coisas, o primeiro é derivado direto da estrutura patriarcal com que foi moldado o nosso processo civilizatório, nossa cultura e o reflexo disto em hábitos e costumes que levam a opressão, espancamento, morte, escárnio, estupro, depreciação e não aceitação de tudo aquilo que foge aos padrões masculinos e heteronormativos.

Já o feminismo é uma resposta a isto, um meio legitimo de auto defesa de um grupo historicamente oprimido. Não somos nós mulheres, lésbicas, degeneradas, trans, homos, que saímos em gangues espancando, estuprando e torturando pessoas dissidentes do padrão patriarcal. Isto quem faz são eles, que impregnam o mundo com uma cultura de ódio que só beneficia uma ínfima parcela da população, enquanto a maioria é incentivada pela ideologia machista a duelar entre si. 


Para quem ainda não ouviu a música, ela fala de uns tipos bem específicos de homens, fala dos pedófilos, dos agressores, dos reacionários... Uma vez, ao cantarmos esta música em uma praça e sermos abordadas e questionadas por um homem sobre ela, nossa resposta foi "Se você não é pedófilo, nem agressor, nem machista, não tem nada a temer". Acho que esta resposta continua sendo válida. 


No entanto a nossa avaliação deste episódio é positiva, sabemos que nenhum grupo oprimido conseguiu o fim desta opressão de uma forma pacífica, foram necessárias revoltas, revoluções políticas, econômicas e culturais. Nos cabe aqui incentivar a outras mulheres que façam o mesmo, gravem vídeos, músicas, escrevam textos, saiam às ruas, se mostrem, vivam, respirem, amem outras mulheres, formem coletivos, produzam diversas formas de arte.

Assim como ninguém é machista sozinho, afinal é necessária toda uma estrutura social que respalde isto, ninguém é feminista sozinha, é necessário respaldarmos e apoiarmos umas as outras. Os machistas odeiam essas coisas, perdem o espaço, eles estão acostumados com uma sociedade voltada aos interesses deles, quando mostramos outra, eles piram e perdem. Sabemos que estas respostas que o vídeo teve, significa perda de espaço que eles tiveram, por isto, continuaremos a fazer mais e mais. Ecoaremos nossas vozes nas ruas, nos protestos, nas marchas, nas manifestações, nas escolas, bibliotecas comunitárias incentivando uma educação popular feminista "por nós, pelas outras, por mim”.

Meu comentário: 

Meu apoio a essas guerreiras. Não sou filiada a partidos políticos, não faço parte de nenhum coletivo feminista (mais por total falta de tempo do que de vontade), mas admiro muito quem tem a disposição de fazer a luta na rua, na favela, na periferia, em espaços não virtuais. 

"Cortar a pica" não seria a linguagem que eu usaria, mesmo metaforicamente, porque ainda estou aliada a uma mentalidade (que, eu sei, muitxs julgam burguesa) de que é possível fazer a revolução com paz e amor. Mas reconheço que há inúmeros meios de lutar, e não é o meu jeito que está certo, e o de outras ativistas, errado. E também acho que os feminismos não são incompatíveis entre si. 

Entendo que há textos e imagens que fazemos para nós, para o nosso empoderamento, que é tão importante. E há aqueles que fazemos para outras pessoas, para, talvez, espalhar a nossa luta, para conquistar mais corações e mentes. Penso que o vídeo do Pagu Funk foi feito com o primeiro propósito, e que ele pode dar muito poder às mulheres, nenhuma das quais sairá por aí com um facão ou tesoura disposta a cortar picas. Concordo que não há diálogo com mascus, machistas e reaças. 

Sim, esses caras já pensam o que pensam de feministas (e de qualquer outro ativista), e eles não são terrivelmente criativos: eles chamam mulheres que lutam de mal amadas, lésbicas, machonas, barangas com inveja do pênis ou falta de rola (sem perceber que são ofensas contraditórias)... desde 1850, por aí. As sufragistas eram chamadas de exatamente as mesmas que coisas que qualquer feminista é chamada hoje.  

E eles têm muito medo porque sabem que seu mundo está ruindo. Porque sabem que a luta é forte, e justa, e necessária.

Veja o vídeo Pagu Funk, Vou cortar sua pica








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